domingo, 19 de fevereiro de 2017

O 1º Ciclo no autismo, uma boa ou má experiência?

          Há um momento crucial na vida destes miúdos especiais que aterroriza qualquer mãe ou pai, que é nada mais nada mesmo que a entrada no 1º Ciclo do Ensino Básico. Para qualquer outra pessoa que não saiba como é a rotina familiar destes miúdos poderá parecer demasiado proteccionismo e na melhor das hipóteses ou na pior das hipóteses que os pais são uns exagerados e dramáticos, tão longe da realidade certo? Cá em casa também foi um processo mais ou menos complicado e só não foi pior porque a Verónica já conhecia o professor titular da turma e alguns dos miúdos que estiveram no pré-escolar com ela.
            Se para as famílias destes miúdos é um stress o início desta nova etapa na vida dos seus filhos, imaginem então para uma criança com autismo, fora da sua rotina, muito provavelmente numa escola com instalações diferentes de onde era o seu pré-escolar, com uma turma nova, auxiliares novas, um professor (a) novo(a), uma maneira de estar na sala de aula completamente diferente, só pode ser angustiante certo? Por muito que gostasse de escrever aqui um texto floreado não dá para o fazer porque a verdade é que esta nova fase é um processo bastante complicado cheio de uma montanha russa de emoções. Cá por casa foi complicado na medida que embora estivesse tudo preparado para a entrada no 1º ciclo, na escola onde frequentava o pré-escolar, com o professor escolhido por ela (explico mais adiante) e claro por nós pais acabou por o agrupamento a colocar numa outra escola com uma professora (à moda antiga) e sem nenhum dos colegas do pré-escolar. Posso dizer com toda a certeza que foi um dos piores momentos da minha vida enquanto mãe da Verónica, é um sentimento de impotência pois não podemos obrigar um agrupamento a fazer o que é melhor para os nossos filhos….mesmo tendo havido suporte de opinião médica, ela não foi sequer considerada. Por ter tomado conhecimento desta alteração somente a uns dias de iniciar o ano lectivo, tive receio de não aceitar e colocar num outro agrupamento longe de casa sem ter sequer bem a noção de como seria, pois, de facto não tinha ninguém conhecido que pudesse dar um feedback. Embora a escolha não fosse a da nossa família pelo menos tínhamos pessoas que iriam acompanhar de alguma forma a Verónica e claro que teríamos conhecimento de como ela passaria os dias na nova escola.


      Só no início de Setembro estavam afixadas as turmas de alunos e que verificámos através de uma mãe que entrou em contacto comigo e perguntou-me o porquê da Verónica ser a única a não estar com os seus pares. Já não sentia desilusão, já era mais qualquer coisa mas diziam-me que a professora que ficaria com ela era experiente e de facto muitos pais pareciam adorar a senhora, embora não estivesse nada convencida resolvi dar o benefício da dúvida, afinal teria a mesma professora de ensino especial e o mesmo auxiliar espectacular da unidade de ensino estruturado, porque não tentar? Cheia de remorsos andei à procura de material alusivo aos My little poney, o que para não variar não havia quase nada pois como sempre ela tem tendência a gostar de coisas que já não estão na moda ou simplesmente não chegaram à Europa, sim ela adora tudo o que é americano e sim, sabe que a Amazon vende coisas estrangeiras e pede para lá compramos coisas desde os 4/5 anos. Conseguir arranjar a mochila e o estojo foi pura sorte mas tive que inventar na parte dos cadernos, ou seja, comigo o lema é: “Se não há, cria-se!”, pois bem imprimi uma data de póneis e criei eu os cadernos My little poney! Por momentos achámos que criar todas as condições pudesse de algum modo atenuar a angústia e a ansiedade de todos nós cá em casa, tão longe da realidade mas demos realmente o nosso melhor nessa altura, modéstia à parte.

           Então o famoso dia D chegou, escusado de dizer que practicamente ninguém dormiu na noite anterior, entrar naquele corredor que seria até habitual pois ela tinha passado por ele 3 anos consecutivos para frequentar a unidade estruturada  mas naquele dia parecia dia de sentença, tentei ignorar a sensação amarga que tinha e dirigi-me à sala, não consegui ter nenhuma empatia com a professora e comecei a sentir um ligeiro pânico. Se eu estava a sentir pânico então como estaria a miúda, ainda por cima sem conseguir comunicar verbalmente nessa altura? Tinha tudo para correr mal e correu mesmo! Ao fim de uma semana, já tínhamos assistido à minha frente a professora ameaçar bater nas mãozinhas como se fosse a coisa mais natural do mundo, os miúdos completamente sossegados na sala de aula nos primeiros dias, sem se levantarem das cadeiras mesmo não estando nenhum adulto (não me parecia de todo normal, uma vez serem miúdos dos 5 aos 6 anos de idade), vi uma professora completamente contrariada, a pensar que eu tinha exigido a mesma para a minha filha (nem sequer sabia quem era a senhora antes). A miúda acabou por ficar mesmo doente devido a toda esta situação, tinha pesadelos nocturnos, dores abdominais, náuseas e então vieram as diarreias, basicamente estaria aterrorizada. Não querendo entrar aqui em detalhes ao pormenor, acabou por vir para casa uns dias, até as condições estarem reunidas na escola que tínhamos escolhido para a nossa piolha, não tinham uma auxiliar para a acompanhar em pequenas tarefas ou necessidades básicas devido à condição de Autismo. A resolução esteve longe de ser pacífica e tive de pedir ajuda aos Pais em Rede, acho que sem eles não teria muito provavelmente conseguido concretizar a transferência de escola. Partilharei aqui o contacto desta associação pois penso que é relevante para todos os miúdos portadores de algum tipo de deficiência, não só os que pertencem ao espectro do autismo.
Então, finalmente ela teve verdadeiramente direito ao seu primeiro dia de escola, vi um sorriso tão cheio de alegria e um brilho no olhar que não dá para descrever em palavras mas que ainda hoje quando recordo me emociono, não tanto por termos vencido esta batalha mas por ter visto finalmente aquele olhar no rosto da minha filha….acho que qualquer pai ou mãe percebe o que eu quero dizer.

http://paisemrede.pt/

      Querem saber como sei que ela escolheu o professor dela? 


A verónica esteve 3 anos no pré-escolar onde infelizmente no último ano houve alterações, tendo havido algumas substituições da educadora da sala, o que acabou por destabilizar não só ela como todos os meninos da turma dela. Numa altura em que pensávamos se ficaria ou não mais um ano no pré-escolar por ter 5 anos e não 6, ela resolveu procurar mais vezes o Professor na sala do lado do 1º ciclo e a afinidade com os miúdos era tão diferente das do pré-escolar mas não era propriamente uma novidade porque sempre se interessou por miúdos com uma faixa etária bastante superior à dela, muito em parte porque eles a conseguem estimular e os mais novos não. De visitas esporádicas começou então a ser uma rotina, talvez porque nessa altura seria o seu ponto de referência na escola, uma vez que tinha ficado sem a sua educadora e também sem a sua auxiliar preferida (vítima de um cancro), então a surpresa aconteceu quando foi oferecer flores ao professor…..algo que nunca tinha feito a ninguém, nem mesmo a mim que sou a mãe. Compreendi então que apesar de não conseguir comunicar verbalmente, ela claramente estava a usar tudo o que sabia ou conseguia para comunicar, cheguei mesmo a assistir a um abraço que ela foi dar de livre espontânea vontade ao professor e fiquei sem palavras, finalmente ela criava laços a sério com alguém que não os pais ou a irmã, era por isso uma fase muito especial nas nossas vidas! Um dia vou dedicar um texto ao professor dela…o Professor José que apesar de já não ser professor dela porque a escola acabou por fechar ao fim de 2 anos é e sempre será uma peça fundamental na vida da Verónica. Se por um lado encontramos pessoas com falta de sensibilidade e que em alguns casos até nos dificultam muita vida, também é verdade que há outras pessoas que encontramos na nossa caminhada que são híper especiais e o professor dela (será sempre para mim e para ela, ainda que não de forma oficial).

             De uma forma muito reduzida, os dois anos que se seguiram foram uma verdadeira montanha russa, onde houve momentos altos e baixos, mas nada teve a haver nem com o professor nem com os colegas, digamos que foi mais uma questão de agrupamento vs recursos humanos (muitos saberão aqui ao que me refiro). Durante o tempo que esteve nesta escola, vi uma Verónica mais virada para os seus pares e note-se que o método terapêutico escolhido por nós pais trabalhava mais a parte cognitiva e não a parte social, mas o trabalho feito na escola levou a que desenvolvesse aptidões sociais que é uma das principais condicionantes neste tipo de diagnóstico.

          Numa altura que vejo tantos pais a queixarem-se de que as coisa não correm nada bem ou pelo menos como tinham esperado na escola dos seus filhos é, com uma certa nostalgia que recordo este dois anos porque de facto mudaram e definiram o percurso escolar da minha miúda.
Após ter fechado a escola da Verónica, como qualquer outro pai fomos ver escolas dentro e fora do concelho para podermos tomar a decisão que nunca queríamos ter tomado mas acabamos por escolher uma que nos pareceu dentro dos possíveis ser o mais adequado até porque claramente nada era comparável ao que tinha tido antes, muito em parte porque agora já não há assim tantas escolas de “aldeia” e as poucas que há por norma não têm meninos especiais por causa de não terem uma unidade estruturada. Apesar de tudo muito planeado e até antecipado, levamos um Verão inteiro a “treinar” a Verónica para a grande mudança, inclusive com o apoio de terapeutas da colónia externa em que ela esteve, uma colónia muito especial para meninos especiais (voltarei aqui a falar pois já vi que muitos desconhecem a existência desta colónia). No entanto, as coisas não correram nada bem, vimos que tentou integrar-se na nova turma, tendo inclusive ido ao quadro de livre espontânea vontade para mostrar aquilo que sabia mas a escola acabava por a levar muitas vezes para a unidade, algo que não estava de todo habituada pois tinha estado em sala de aula nos anos anteriores. Nunca percebemos se ela teria ido ou não à casa de banho nos primeiros dois dias pois ninguém soube dizer (ela precisava de ajuda nessa área), sabendo nós que ela tem a capacidade física de aguentar um dia inteiro sem ir à casa de banho, foi quase a confirmação de que não teria mesmo ido, a questão é que ela tem um historial clínico com alterações nos rins. Depois viemos a saber pela escola que teve um ataque de pânico no refeitório, colocaram-na na fila de espera e foram embora, depois de tanto alertar claramente não conheciam a minha miúda e muito menos o perfil de autismo dela. Entre estas e outras situações, começamos a ver o comportamento dele a alterar-se de uma forma assustadora, tendo surgido ocasiões em que notamos que poderia de alguma forma estar a regredir e isso é perigoso no autismo. Foi então que marcamos consulta de urgência com o pedopsiquiatra e ficou de baixa durante uma semana até percebermos qual o melhor caminho para a Verónica. Posso vos dizer que no segundo dia de aulas dela na nova escola, acabei esse dia a telefonar a chorar par o professor dela, algo que já não me acontecia faz tempo….sou mais de lutar do que chorar, sobretudo no autismo dela…..até porque não resolve nada infelizmente mas faz parte, somos pais e humanos! Nunca decidi nada em desespero, o desespero é inimigo do bom senso e nisto do mundo do autismo deve se ter cuidado porque há muita exploração de “pais”, de repente há várias formas de se fazer dinheiro com o autismo e ter de separar o trigo do joio é difícil, sobretudo se estivermos em situação de desespero. Como já vem sendo habitual da minha parte, até porque sou uma pessoa bastante racional comecei a pesquisar alternativas à escola dela, acabo sempre por ir espreitar nos EUA ou no Canadá, a minha ideia é que lidam com isto há mais tempo do que nós e têm uma mente mais aberta, não quero dizer com isto que Portugal não lida bem com o Autismo, não há perfeição em país algum e nós até estamos bem posicionados, temos de ser honestos quanto a isto. Começou então a surgir a ideia do “homeschooling” (Ensino Doméstico).

      A ideia só por si era tentadora, mas também aterradora, na medida que assumiríamos a total responsabilidade pela escolarização dela, se a ideia assusta por vezes em miúdos sem patologias imaginem miúdos dentro do espectro. Não iria decidir isto sozinha, passei horas a falar com terapeutas, familiares próximos, amigos, pais em ensino doméstico e o pedopsiquiatra. Curiosamente, a pessoa que não falei sobre “homeschooling” foi o professor dela, não sei bem explicar porquê, não consegui na altura e até tinha medo de lhe contar, mas ver a Verónica a encolher-se e ter ataques de pânico a entrar no centro de saúde a pensar que era uma outra escola, foi o click que precisava para ir em frente. Creio que se o pedopsiquiatra me tivesse dito que era um erro da minha parte, nunca teria dado o “salto”, mas não só apoiou como disse que tinha tudo para correr bem, sobretudo porque tínhamos alternativas para ter interacção social com outras crianças. Num jantar que se deu nessa altura de uma associação muito especial da qual faço (da qual falarei aqui pois acho que poderá ser uma grande mais valia para crianças e famílias especiais), sabia que o professor estaria presente, então escrevi-lhe uma carta com o meu coração, achei que não havia outra forma de o fazer….posso vos dizer que foi a carta mais longa que escrevi em toda a minha vida mas foi também a mais verdadeira. No fundo, acho que se ele desaprovasse e podia o fazer, eu estava a retirar a minha filha da “escola” eu desmoronava-me ali mesmo. Lembram-se de eu ter dito que ele era e é híper especial, pois bem não só apoiou a decisão como tem acompanhado a Verónica desde que iniciámos o “homeschooling”.


           Dedicarei um texto exclusivo só para este tema, até porque já me pediram para fazer um texto a testemunhar como tem sido a nossa experiência e até para partilhar estratégias de ensino para autismo. Embora esta tenha sido de facto a nossa escolha para a Verónica, ela não foi decidida de ânimo leve e eu que estou responsável pelo ensino dela, tenho habilitações para o fazer e faço formações quer na área do autismo quer na área da educação e fazem toda a diferença. Aquilo que parecia ser quase uma “sentença” tornou-se um motivo para sorrir e ter esperança num futuro muito melhor pois a Verónica voltou a escrever nos cadernos coisas da escola (teve mais de um ano e nem médicos ou terapeutas conseguiram que ela voltasse a fazê-lo), mas eu consegui. Já imaginaram como eu poderia mostrar à escola que ela sabia as matérias do currículo escolar se não tivesse rigorosamente nada para mostrar? Pois é, obstáculo ultrapassado…teremos ainda outros a ultrapassar 
mas para a frente é que é caminho e nós estamos a ir em frente sem dúvida alguma. Exposto isto, não ache que o “homeschooling” deva ser a primeira opção, se calhar nem a segunda ou terceira e eu não sou contra a escola, simplesmente no caso da minha filha o sistema falhou com ela e tivemos de ser nós a resolver a situação escolar dela, felizmente estou a conseguir cumprir as metas curriculares ainda que de uma forma adaptada claro mas o currículo é igual a todos os outros miúdos. Uma criança sob stress ou que sofra de ansiedade não vai estar apta para ser ensinada na sua totalidade, no caso da Verónica além de não estar a aprender estava a regredir e isso não podíamos permitir. Tivemos muitos opositores desta estratégia, faz-me lembrar um pouco quando alguém diz que quer ser vegetariano, aparecem logo dezenas de entendidos em nutrição. Não é fácil por vezes estarmos a lutar e ver que para além de não nos ajudarem tentam fazer com que não sigamos o nosso caminho, só por este ser diferente, não se trata de um medicamento ou algo que vá afectar a sua saúde, quando muito poderia não funcionar e termos que desistir, mas não é de todo o nosso caso. Está a ser um sucesso tão grande que resolvi que quero ajudar outros miúdos como ela mas antes farei toda a formação que acho necessária para o efeito, estou mesmo “apaixonada” por esta descoberta de vocação….eu era bióloga.



Espero que seja útil estes textos, demorados e em forma de testamento, o tempo na minha casa não abona e o pouco que tenho livre dedico a fazer formação….essa sempre foi a minha estratégia: formação!


Até breve,

Eu.



                                 
                                                        By Verónica!

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